MÚSICA: VOCAÇÃO OU EDUCAÇÃO?




UMA HISTÓRIA – FINAL
Marcus Vinícius
18/06/2017

            Oi oi oi, leitores e leitoras, sejam bem-vindos a mais uma coluna mensal do blog World Friends! Realmente um mês é muita coisa. Nem sei se vocês se lembram do que escrevi no mês passado, por isso lanço um desafio: se você está lendo este texto agora, convido-os a ler os anteriores, clicando aqui (Texto 1 e Texto 2). E, assim que terminar de ler este texto, dê-me um retorno dizendo se gostou ou não. Pode criticar o quanto quiser, pois críticas são sempre muito bem vindas, e só me ajudam a melhorar. O que me interessa mais aqui é seu retorno, e nosso diálogo.
            Bom, esta é uma trilogia inicial de textos, que termina hoje. Nos dois textos anteriores eu contei um pouco da minha história de vida, para que você pudesse saber ao menos um pouco de como eu vim parar na música. Afinal, hoje sou, mais do que tudo, um educador musical, e diversas coisas me inclinaram a esse caminho. Fiz todo esse percurso para, enfim, chegar à questão inicial: música é uma questão de vocação ou de educação?
            Quem leu os textos anteriores deve imaginar que defenderei a ideia de que quem é músico nasce músico, e não há caminho que o faça desviar da música. É uma questão de vocação. É claro que, como qualquer carreira ou profissão, existem pessoas com habilidades maiores ou menores para as coisas, isso é fato, há vocação para qualquer profissão. Mas o que entendi e aprendi nesses anos todos é que música não é só profissão, mas sim uma questão de educação, de formação humana, e isso me fez direcionar-me, como músico que sou, para a educação musical, acima de tudo. Educação de crianças E adultos. Para mim, aprender música é uma habilidade tão essencial quanto aprender a falar, ler ou escrever. E esse é um dos grandes desafios que enfrentamos no Brasil. Somos muito mais analfabetos na música do que nas letras, e isso não é culpa dos brasileiros, mas sim do que foi feito com o ensino de música no Brasil nos últimos quarenta anos.
            Não sei se o leitor sabe, mas até o ano de 1973, o ensino de música nas escolas, assim como de outras artes, era curricular. Havia, inclusive, a prática do canto orfeônico, uma espécie de canto coral de cunho nacionalista, implementado por Villa-Lobos durante o regime de Getúlio Vargas, como forma de promover a integração nacional através da música. Podemos questionar uma série de fatores que dizem respeito à proposta de Villa-Lobos, desde a política até a estética. Mas não podemos negar a importância que teve esse ensino massivo de música nas escolas que, quer queira quer não, durante quarenta anos foi vivo nas escolas de todo o Brasil, e culminou no período mais pujante de nossa música, tanto em quantidade de grandes músicos, excelentes e criativos, como em qualidade, visto que, entre os anos 50 e 80, pudemos ver o surgimento de movimentos importantíssimos, como a Bossa-Nova, o Tropicalismo, o surgimento da MPB, entre outros. Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Caetano, Gil, Milton Nascimento, Djavan, são alguns dos geniais nomes que podemos citar desse período tão frutífero. Mas o mais importante a se dizer é que dificilmente tudo isso existiria se não tivéssemos um cenário de bons ouvintes, um público bem formado capaz de ouvir, desfrutar e entender essa música boa. O ensino da música não forma apenas músicos, mas também, e mais importante, bons ouvintes.   
            Pois, em 1973, a música saiu do currículo das escolas. O governo militar do general Médici, em um movimento para definitivamente tolher o moto criativo e artístico brasileiro, decidiu reduzir as horas curriculares em artes a apenas duas horas semanais, transformando todas as artes em uma coisa só: Educação Artística. Isso serviu para, pragmaticamente, dar mais atenção ao ensino técnico e produtivo, e menos atenção ao desenvolvimento humano e criativo. O resultado disso todos sabemos. A Educação Artística acabou se voltando praticamente às artes plásticas, por trazer um resultado mais prático e materialmente palpável. Música, dança e teatro foram deixados às traças, abandonados pela escola. Pouquíssimas são as escolas que, de fato, hoje, dão uma atenção real a isso. E o vestibular só fez esse desinteresse das escolas pelas artes crescer ainda mais. E nós, brasileiros ficamos órfãos de ensino criativo e desenvolvimento humano. Arrisco dizer que a ausência das artes nas escolas nos últimos anos, vistas com seriedade, é uma das causas desse desequilíbrio torpe, insensível e agressivo que permeia nossa sociedade.
            Mas falarei sobre música, que é o que cabe a mim. Hoje tenho total convicção da importância do ensino da música na formação das pessoas, desde bebês. A música não só “acalma o espírito”, como também aguça a sensibilidade, a atenção e a percepção das coisas, desenvolve a lateralidade, a linguagem, o equilíbrio, o senso coletivo, o respeito, o autoconhecimento, entre outras importantes habilidades humanas que ficaram para trás nesses anos todos. Isso não serve só para músico. Serve para todo mundo. A criança, desde pequena, aprende, nas aulas de musicalização, a ouvir, a respeitar sua vez, a criar, a respeitar a criação do outro, além de brincar, jogar, expressar-se, movimentar-se e se divertir. Essa é a base de seu desenvolvimento, a qual a ajuda a aprender diversas outras coisas.



            Também trabalho com “musicalização”de adultos, através da prática do canto coral, e é evidente como, grosso modo, a maioria dos adultos está ensimesmada, engessada, incapaz de perceber uma nota musical, quanto mais reproduzi-la. Incrível, até a década de 70, praticamente todo mundo cantava! E cantava mesmo, com acuidade e afinação. Hoje, como é difícil conduzir as pessoas a cantar! Uma prática tão gostosa, que nos leva cada vez mais ao autoconhecimento, e ao senso coletivo através da magia da música. As pessoas revelam uma dificuldade enorme em se expressar através do canto, da música que seu próprio corpo pode produzir. Revelam dificuldade imensa em olhar para si mesmo, e lidar com seus sentimentos, suas angústias e seus medos. Revelam extrema dificuldade em assumir um compromisso com o outro, e imensa insegurança com relação a si mesmo, a encarar sua própria essência. E não é culpa de nossos cidadãos, mais uma vez reafirmo, mas sim de uma política desastrosa que ainda negligencia o ensino das artes nas escolas.
            Infelizmente, esta é nossa realidade, e nós estamos vivendo não só um momento em que a produção musical de massa é de péssima qualidade. Vivemos uma carência de bons ouvintes, capazes de entender e valorizar a boa música, bem feita, interessante e bem produzida. Essa música existe, esses músicos também, mas eles estão sempre no lado B, pois falta público para desfrutar de sua música.




            No próximo mês falarei mais sobre educação musical. Se algo nesse artigo lhe interessou, e você gostaria que eu escrevesse um texto que desenvolva mais esse assunto específico, escreva no e-mail que deixarei abaixo, e eu me debruçarei sobre isso. Seu interesse é o alimento para meus futuros textos, o que faz desse espaço algo ainda mais interessante.
            Muito obrigado pela atenção, espero que tenham gostado, e até breve!      
                 

Marcus Vinícius: Bacharel e licenciado em Letras pela Unicamp, mestre em Teoria e História Literária pela Unicamp, e licenciando em Música pela Unimes. É professor de coral da Escola Waldorf Veredas (Campinas), e professor de música na Casa do Meio (Jundiaí) e na Alegria e Cia. (Campinas). Cantor no Madrigal In Casa e no coral do TRT de Campinas, e membro da Orquestra do Corpo, projeto do núcleo Barbatuques. Está gravando seu primeiro disco autoral, BrisBrisa, com lançamento digital previsto para julho de 2017.


Contato: marcusvsil@gmail.com; whatsapp: (19) 99157-1465    


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