MÚSICA: VOCAÇÃO OU EDUCAÇÃO? UMA HISTÓRIA - PARTE 2


Oi oi oi, leitores e leitoras, bem-vindos a minha segunda coluna do blog WorldFriends! Espero dessa vez não te atormentar tanto, prometo terminar de contar minha história. Vamos a ela.
No mês passado, contei a vocês um pouquinho de como começou minha história com a música, desde pequeno. Contei também sobre minha experiência, quando adolescente, em alguns festivais de canção, em especial, o Mapa Cultural Paulista. Contei também sobre o meu praticamente certo destino na carreira musical. Caso ainda não tenham lido esse texto, convido-os a lê-lo clicando aqui.
Pois bem, talvez eu tenha exagerado quando disse a vocês que passei 15 anos de minha vida afastado definitivamente da música, não foi bem assim. Durante todo esse tempo estudei canto, sem parar, e sempre cantei em corais, seja no Madrigal In Casa, seja no coral do TRT de Campinas. Porém, durante esse tempo todo, não consegui entender a música como algo do que eu poderia me apropriar como meu, muito menos que eu teria condições de seguir essa carreira como profissão. Já explico.
Quando decidi, aos 17 anos, que queria definitivamente fazer música, a reação de meus pais foi absolutamente negativa, o que não é exclusividade minha, claro. Eles não queriam que eu cursasse música. Diziam que eu precisava fazer outra faculdade, garantir minha estabilidade financeira e, quando eu não dependesse mais deles, poderia fazer o que quisesse. Eu, contudo, estava decidido, e não mudava de ideia por nada. Depois de várias conversas conturbadas, discussões calorosas, minha mãe usou sua última cartada, a mais dolorosa: ela me disse que eu pisava nas nuvens, e que tinha que colocar os pés no chão. Eu nunca seria um músico de sucesso, pois não tinha talento nenhum. E disse também que, caso eu decidisse por esse caminho mesmo, não me apoiariam em nada.
Bom, não preciso dizer que meu mundo caiu. Um adolescente de 17 anos precisa mais do que nunca da confiança dos pais, e o que minha mãe me disse me feriu como uma espada cravada no coração. E eu acreditei, se minha mãe me dizia que eu não tinha talento, o que seria dos outros? Não tive caráter para enfrentar meus pais, desgarrar e seguir minha vida.
Como eu gostava muito de escrever, acabei optando por cursar Letras, mesmo não fazendo a menor ideia do que significava um curso de Letras, na verdade. Minha escolha era estratégica: Queria cursar Letras na Unicamp, só. Isso porque o Instituto de Estudos da Linguagem ficava do outro lado da rua do Instituto de Artes, mais especificamente da faculdade de música. Prestei meu único vestibular, e disse a mim mesmo que, se não passasse, iria para Tatuí, faria curso técnico em música, e essa seria minha vida.  Pois eu passei. E fui cursar Letras, depois faria o que quisesse. É claro que todas as minhas matérias eletivas foram cursadas na música.
A faculdade de Letras foi uma excelente experiência, não posso reclamar da quantidade de coisas que aprendi, além dos grandes amigos que fiz. Mas hoje me dou conta de que realmente não tem nada a ver comigo. Definitivamente não é uma carreira artística, e sim acadêmica, apesar de alguns amigos artistas terem saído de lá. Na prática, tenho muito mais amigos professores, pesquisadores, doutores que de lá saíram, do que artistas. E eu achava que eu tinha que ser um acadêmico, e acabei construindo um grande bloqueio para a música. É como se fosse algo inacessível a mim, uma decisão errada, uma busca fracassada desde o início. Insisti em ser um acadêmico, e é lógico que me frustrei muito, porque para isso eu realmente não tinha talento algum. Foi na base da raça.
Ainda na faculdade, precisei trabalhar, pois precisava desgarrar de meus pais. Então o caminho mais natural era a sala de aula, e fui procurar trabalho como professor de Português, Literatura e Redação. Essa foi minha vida durante 15 anos, rodei diversas escolas, públicas e particulares, dando aulas, e aprendendo demais com meus alunos, principalmente com os adolescentes. Sofri muito, tive muitas angústias, mas, após 8 anos consegui entrar em uma sala de aula sem frios na barriga.
Após três anos da conclusão de minha graduação, eu entendia que precisava fazer um Mestrado, era uma questão de aprovação pessoal, afinal, eu era um acadêmico. E foi aí que ingressei no universo da história da música popular, pois, mesmo sendo no Instituto de Estudos da Linguagem, estudei canção, mais especificamente as canções de Adoniran Barbosa. Tudo, porém, a partir de um viés totalmente acadêmico, nada artístico. Mas foi sim uma experiência libertadora, e meu principal exercício de escrita.
Durante um tempo enorme guardei uma mágoa gigantesca de meus pais, por tudo isso que passou. Hoje, confesso que entendo com muito amor a atitude e a condução deles, apesar de saber que, a meu ver, não foi a condução correta. Amo-os como nada mais nesse mundo, e considero terem sido fundamentais para a formação da pessoa que hoje sou. Sei que a atitude deles, apesar de dolorosa, foi repleta de amor, mas essa compreensão, infelizmente, teve que passar por caminhos muito tortuosos. Valorizo demais tudo o que me disseram, e credito todas as minhas conquistas a eles.  Não ficarei aqui divagando sobre “como seria se...”. “Se” não existe, e minha carreira na música teve que seguir o caminho que seguiu. Fim. Eu acredito, contudo, que é possível construir uma carreira sólida na música, tão sólida como uma carreira como professor de português, ou qualquer outra. Não necessariamente é uma carreira de sucesso massivo, nem é isso o mais importante, e é aí que mora a grande confusão. Mas é possível seguir uma carreira vitoriosa, com um trabalho bonito, rentável, e que faça diferença na vida das pessoas. O trabalho do músico é essencial, e vai muito além do sucesso das bilheterias. Música não é só entretenimento, é desenvolvimento e formação humana. E foi o entendimento disso tudo que me fez retornar à música. Como? Deixo para meu próximo artigo, que este está longo demais.
Muito obrigado a todos, e até o próximo mês!

Marcus Vinícius: Bacharel e licenciado em Letras pela Unicamp, mestre em Teoria e História Literária pela Unicamp, e licenciando em Música pela Unimes. É professor de coral da Escola Waldorf Veredas (Campinas), e professor de música na Casa do Meio (Jundiaí) e na Alegria e Cia. (Campinas). Cantor no Madrigal In Casa e no coral do TRT de Campinas, e membro da Orquestra do Corpo, projeto do núcleo Barbatuques. Está gravando seu primeiro disco autoral, BrisBrisa, com lançamento previsto para julho de 2017.       
    

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